O que podemos aprender com a Carta de Amor de Maria Bethânia?

  A interpretação de palavras é individual para cada um, mas venho colocar a minha visão que destoa completamente de alguns dizeres que esse seria o maior discurso de ódio da MPB, um ataque a um amor, ou qualquer pessoa em específico.

  Tentarei mostrar minha posição e visão idealista junto com a entrevista que Maria deu a respeito dessa música, onde ela fala que escreve e queima, escreve e queima, porque ela não escreve para ninguém, apenas para si. Para se conhecer melhor e é na base desse auto-conhecimento e desenvolvimento que foco meu olhar, esse carta de amor é para cada interior, cada coração.
Não mexe comigo, que eu não ando só,
Eu não ando só, que eu não ando só.
Não mexe não! 
   Quem não deve mexer comigo? Não deve mexer comigo tudo aquilo que quer me fazer mal, me desviar de meus caminhos, de meu propósito, porque não irá conseguir. Limitar que é para apenas uma pessoa "não mexer conosco" é perder a essência e amplitude dos versos. O que pode me desviar dos meus caminhos? O que pode me fazer mal realmente? Será que não poderiam ser meus pensamentos, emoçõe? Inclusive até más intenções de outras pessoas mas que só podem fazer mal se não estou firme no propósito, minha fraqueza também pode fazer mal.
  Seria um culto de fortalecimento: Hey, tudo que pode tirar minha força, olhe nem adianta mexer comigo porque eu não ando só (minha fé, meu sorriso, meu otimismo, tudo o que me fortalece) está comigo. Esse é meu exército que me mantém em meu caminho. Quando desenvolvo as virtudes em seu lado positivo, o que é negativo não encontra espaço.


Com a menção aos orixás podemos aprender sobre o que cada um nos oferece e nos ensina.
Não misturo, não me dobro.
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo,
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim.
   Perante as forças externas "não misturo, não me dobro", preservo a minha identidade e minha essência, quem eu realmente sou. Se tem tempestade lá fora eu não vou com ela.
A rainha do mar ou Iemanjá nos ensina das marés, o baile de ondas, onde tudo é instável... e cantar, cantar, cantar... desenvolver alegria e amor para lidar com as mudanças, permitir a fluidez das situações mas sem se afogar nesse mar inconstante. É o tal do equilíbrio emocional ou inteligência emocional. Na vida todos somos marinheiros do barco das emoções e Iemanjá é a a mãe que nos guia e fortalece na navegação.
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo,
Garante meu sangue, minha garganta.
O veneno do mal não acha passagem
   Oxum é a mãe, Oxum é o amor universal, puro e incondicional. Não há ódio, desamor, tristeza, ciúme, rancor... não há "veneno do mal" que ache passagem quando estamos conectados com a vibração do amor, a vibração de Oxum. No amor, nos sentimos aceitos, não temos medo de falar quem somos e para que viemos. Um sangue de amor, uma garganta de amor destemidos que nada nem ninguém pode calar. Aqui há o discernimento que medo, indecisão, ciúmes, inveja, vergonha, culpa, maldade, vingança... nada disso tem lugar. Porque o sangue das boas virtudes está garantido pela força de Oxum, pela força do Amor que não tem como ser corrompido. E nossa luz, nossa essência. Nossa Alma vibrante não foi feita para ser escondida ou preservada, e sim para brilhar. A conexão com o Amor nos permite isso, nos permite ser e se desenvolver.


Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou, que o santo me leva
É por onde eu vou, que o santo me leva...
   Não andar no breu, nem andar na treva... Não andar na escuridão... ou seja, nenhuma situação será escura, independente de como ela se apresenta, afinal "é por onde eu vou, que o santo me leva". E se o santo me leva, isso quer dizer que por onde tenho que caminhar a luz anda ao meu lado, enfrentando tudo o que vier com fé e a luz da consciência. O que para alguns se apresenta como breu, trevas, tabus... tudo isso é desmistificado pois a luz e a consciência são companheiros de viagem. E o que é essa luz? Eu poderia classificá-la como discernimento e aprendizado.


Medo não me alcança.
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião vira pirilampo.
   O que o medo costuma fazer? Nos imobiliza! Aqui está firme que não há medo de solidão, mudanças e o que é de fato desconhecido. Isso não a impede de viver, pois é no deserto, na completa solitude que temos um contato maior com nós mesmos e passamos a nos conhecer. A cobra que é a pura representação das mudanças, renovações (a cobra que troca de pele) ou como também culturalmente é conhecida por falsidade, sendo como for, as projeções não tem vez, elas mordem o rabo, porque não há medo da realidade e das mudanças como elas se apresentam. Escorpião que é símbolo das ciências ocultas, tudo que não está nítido e claro e sim subjetivo e escondido, isso também não assusta pois "vira pirilampo", vira luz, vem a tona e se transforma em conhecimento.
   A coragem de se enfrentar solidão, mudanças, romper com projeções (crenças, pensamentos, etc) e lidar com aquilo que ainda não se possui conhecimento, enfim aprender.
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
   A caminhada é difícil. Ninguém disse que não seria. Caminhar dói, cansa, machuca... mas nossos pés são tratados pelo carinho, como fez Maria nos pés de Jesus. Temos as forças renovadas quando menos esperamos. Uma leitura, um amigo, uma música, uma viagem... enfim, pequenas surpresas providenciais. A caminhada é difícil, mas tem muitas flores no trajeto.
Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão,
E pra onde você for, não leva o meu nome não
  Não provar do fel seria não se submeter ao "mal" que nos bate a porta diariamente... Não caminhar por esses caminhos. Afinal muitas vezes na vida somos vítimas da maledicência, injustiças, ataques, humilhações, traições, agressividade, intolerância... mas não, não vamos provar desse fel, não seguiremos por esses caminhos. Não seguir por esses caminhos é nos preservar em essência e não responder "na mesma moeda". É um ponto de firmamento e centramento: independente do que seja, eu não provo desse fel e eu não piso nesse chão. E muitas vezes nossa moral ainda cai nas bocas de quem não vale nada e é distorcida, sabemos que a maior prova para essas pessoas é continuarmos fazendo o que com dignidade outros não seriam capazes de fazer nesse momento de evolução em que se encontram, mas ainda há a afirmação e imposição do auto-respeito e valorização: "Para onde você for, não leve meu nome não". Não usar o mel e os bons caminhos para serem cúmplices nesse fel que está sendo criado. Não corrompa o que é sagrado, defendendo seus valores, seu trabalho, sua moral, e quem de fato se é.
Onde vai valente?
Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira.
Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.
  Aqui a prepotência, arrogância e orgulho são apresentados como o "valente", valente esse que se afasta de sua natureza e não cultiva a humildade, não se toca que talvez ele só tenha se engrandecido sustentados por essa "relva", pelas "músicas"... enfim as simplicidades. E esse valente perde o contato, abandona.. fica cego, surdo... perde a noção das coisas... perde a beleza da vida... perde sentimentos, fica deficiente por se afastar dessa raiz que o nutria. Seca e morre por si só esses sentimentos.
Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa.
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma.
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.
   O poder que não cresce com humildade e valores se torna vazio, sem alma, sem humanização. Perde a sensibilidade, fica vazio. Quem é vazio se torna deprimido, se torna psicopata.. perde a conexão, não consegue sentir... só sente o vazio, é oco. O poder que não cresce com humildade é um morto que esqueceram de enterrar...



O que é teu já tá guardado.
Não sou eu quem vou lhe dar,
   Aqui é pura lição de que fruto podre, cai sozinho. Que ninguém precisa fazer justiça com as próprias mãos, apenas continuamos no nosso caminho e unindo forças para construir o que de fato desejamos e não desprender forças para combater "o mal", o "errado", seja ele pensamentos, ideias, ações, personalidades de pessoas, o que for...
  Qualquer erro ou injustiça é reparado com o tempo e no tempo certo, com o aprendizado, com as experiências, seja pelos caminhos da dor ou do amor. Não se faz necessário forçar nada, perante as leis divinas estamos todos livres para errar e aprender, e pelas leis divinas e os movimentos da vida e do tempo é que vamos nos corrigir caso se faça necessário.
   Quantas vezes nos deparamos com atitudes injustas? Por mais que a justiça dos homens seja feita, ela de nada vale quando não se absorve e se conhece naturalmente aquele sentimento na própria pele. E isso é um processo que só cabe ao "injuriador" experimentar e não a nós "impormos" à ele.
   Quem já viveu e experienciou os ciclos de dor e amor, alegria e tristeza, abundância e pobreza sabe o que eu estou falando. A vida é uma roda gigante, todos passam por situações semelhantes, faz parte do nosso aprendizado passar por situações de perdas, difamação, golpes, traições, enganos, dores... e quem é co-criador dessas situações, um dia será ensinado pela vida o valor que há nisso. Todos somos apresentados à esses sentimentos e situações a única diferença está em quando somos apresentados.
  Isso é ter confiança na vida, nas leis divinas e no processo de amadurecimento de cada ser.




Eu posso engolir você, só pra cuspir depois.
Minha fome é matéria que você não alcança.
Desde o leite do peito de minha mãe, até o sem fim dos versos, versos, versos, que brotam do poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi.
   Superficialidade, matéria sem valores, sem raiz, "alimentos" (situações, pessoas, coisas, palavras, relacionamentos, trabalhos, atitudes...) que não nos nutrem de fato podem ser engolidos, forçados pela pressão da vida, mas são jogados fora logo depois. Não são absorvidas. Porque só fica aquilo que tem significado, que tem essência, que tem raiz, que vibra igual. Tudo o que nos é imposto e não condiz com a nossa alma, nosso íntimo, nada disso vinga. "Minha fome é matéria que você não alcança", isso são coisas que as vezes só a gente sente que ninguém mais irá compreender, mas todos temos fome de alguma coisa que ninguém consegue alcançar, apenas nós. Isso que nos impulsiona para o nosso propósito de vida, são os nossos valores e só permanece o que de fato tem algum sentido.
Se choro, quando choro, e minha lágrima cai, é pra regar o capim que alimenta a vida, chorando eu refaço as nascentes que você secou.
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio.
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar.
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi, cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.
   Quantas vezes na vida somos postos em situações/momentos em que nossa fonte de esperança seca? drenados por muitos fatores, seja a falta de consideração, sejam as dificuldades, o que for. E chorar, fazer essa pausa, não é desistir, chorar é recarregar, é renascer.. "regar o capim que alimenta a vida" "refaço as nascentes"... expulsando o excesso de sal da vida que nos desidrata para que possamos seguir em frente. Se permitir a libertação dessas "más águas", rancores, através da cachoeira que brota através de nossos olhos.
   Sim temos o poder de conseguir manipular e criar situações que "salguem" o nosso exterior da mesma forma que fomos salgados com tristeza, aflições, peso e sofrimento, mas como a letra diz: "Vivo de cara para o vento na chuva, e quero me molhar", porque a missão que está no coração não é se unir aos pecadores e sim se manter fiel ao coração e ajudar os pecados, virtudes negativas, personalidades, pessoas... enfim a se edificarem através da fé, esperança, verdade, amor e claro a não-violência. Isso é o marco das mensagens trazidas por Nossa Senhora de Fátima e Gandhi, lutando por um ideal maior.
   Ao longo da caminhada as brisas podem nos fazer oscilar, mas nenhuma espada corta. Nem mesmo a morte é capaz de levar embora todo sentimento que um ser carrega no peito, cada experiência, cada aprendizado, cada vivência.


Não mexe comigo, que eu não ando só 
Eu não ando só, que eu não ando só

  Contudo uma Carta de Amor ao nosso amor maior, ao nosso amor próprio, ao amor universal, não uma carta de ódio como alguns interpretam e tampouco seria para machucar alguém em específico. Mas sim para nos lembrarmos das batalhas que todos enfrentamos em busca de autoconhecimento e desenvolvimento, guiados por sentimentos nobres, por forças de fé (sejam elas de que religião ou espiritualidade ou falta dela) mas guiados por sentimentos nobres de nos manter firmes em nosso propósito e ideal por mais que as pressões cotidianas batam.
   Quando a luz acende e temos autonomia, consciência e responsabilidade por nossas vidas, o que tenta nos afastar, perde a força por si só. Se fosse uma carta de ódio, não acredito que seja para qualquer pessoa (uma vez que todos somos filhos do mesmo Pai, protegidos pelos mesmo orixás e iguais por natureza), mas se fosse uma carta de ódio, seria com certeza para espantar e transformar de vez os nossos monstros interiores para que saiam do nosso caminho e possamos continuar. 


3 comentários:

  1. A interpretação faz jus a esses verso que há muito tempo são cantados e que por intolerância são mal interpretados! Te parabenizo pela bela e suave interpretação que da a possibilidade de olhar os versos e/ou a música com outros olhos!

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  2. A melhor interpretação que eu li sobre essa letra incrível até hj!
    Tb concordo que isso jamais seria uma carta de ódio.
    Letra forte e empoderadora! Amo demais essa música!

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  3. É realmente uma carta de amor endereçada ao próprio eu, o Eu maior! Bjos.

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